Santos Sereis

                                                                                                                                                             Por Mauricio Pontello

Tenho comigo que quatro coisas são básicas e importantes ao refletirmos sobre a santidade ao Senhor:

  • Primeiro: Ser santo não é uma escolha a ser feita, mas uma realidade a ser vivida por mandamento de Deus.
  • Segundo: O contrário de santo é o “comum” ou o “profano”, aquilo que representa apenas o cotidiano sem Deus.
  • Terceiro: O mandamento não é apenas para os israelitas, mas para todos os que creem. Os ensinos de Jesus, de Paulo e de Pedro nos deixam isso bem claro.
  • Quarto: Se Ele ordenou, é porque é possível.

Quando olhamos para Israel na Bíblia, percebemos que a santidade está posicionada como em círculos concêntricos. Em um círculo maior, temos os israelitas; dentro dele, um outro círculo, que são os levitas; e, no centro do círculo dos levitas, temos os sacerdotes. Isso nos mostra que, quanto mais perto do centro estamos, mais perto de Deus ficamos, ou seja, mais íntimos e mais santos nos tornamos.

Quando olhamos para o Pentateuco, vemos que o livro de Levítico é o seu centro geométrico e teológico. É preciso ter boa imaginação para visualizar todas as cerimônias descritas ali, mas ele é o coração daquelas leis, e o capítulo 19 é o centro do livro. Se formos aos versículos 17 e 18, ali encontramos o centro desse capítulo.

Historicamente, criou-se a ideia de que ser santo é viver uma vida de abnegação, clausura ou isolamento monástico: a vida solitária que os chamados “Pais do Deserto” viveram. Não estou aqui desprezando a história dos monges e dos Pais da Igreja, que se isolaram do mundo para buscar a santidade e fugir da realidade; tudo tem o seu valor e o seu ensino. Só que essas escolhas não refletem a realidade prática descrita em Levítico 19.

A Santidade no Cotidiano (Levítico 19)

Levítico 19 começa assim:

“Disse o Senhor a Moisés: Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo.”

E como essa santidade se expressa? O texto continua:

                                                                       

·         Cada um respeitará a sua mãe e o seu pai, e guardará os meus sábados. Eu sou o Senhor, vosso Deus.

·         Não vos virareis para os ídolos, nem fareis deuses de fundição. Eu sou o Senhor, vosso Deus.

·         Não furtareis, não mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo.

·         Não jurareis falso pelo meu nome, pois profanareis o nome do vosso Deus. Eu sou o Senhor.

·         Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do jornaleiro (trabalhador diário) não ficará contigo até a manhã seguinte.

·         Não amaldiçoarás o surdo, nem porás tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.

·         Não farás injustiça no juízo; não favorecerás o pobre, nem comprazerás o grande; com justiça julgarás o teu próximo.

·         Não andarás como mexeriqueiro (fofoqueiro) entre o teu povo; não atentarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor.

·         Não aborrecerás o teu irmão no teu íntimo; mas repreenderás o teu próximo e, por causa dele, não levarás sobre ti pecado.

·         Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.

Percebam, irmãos, que quando Deus fala sobre ser santo, Ele está falando sobre viver a vida do cotidiano na prática dessas coisas. Deus não está dizendo que a santidade é algo reservado a uma elite espiritual; é para todos. Ser santo é não ser comum.

Reparem que, após dar cada uma dessas ordens práticas, Deus encerra dizendo: “Eu sou o Senhor”. Ele está afirmando: “Eu sou o Senhor e sou santo, ou seja, não sou comum”. O nosso Deus não é comum, e as Suas ações se expressam na realidade do nosso dia a dia, no dia a dia de quem obedece aos Seus mandamentos.

Quando Ele diz para não furtar, não mentir e não usar de falsidade, Ele estabelece uma diferença. Se o contrário de santo é o profano (o comum), Ele está dizendo: “Você não pode profanar o meu nome, tornando o meu nome algo comum”. Você não precisa furtar, porque eu sou o Senhor e nunca lhe faltará nada. Você não precisa mentir para se defender, porque sou eu quem o defende. Você não precisa oprimir o próximo, roubar ou reter o salário do funcionário. Não precisa amaldiçoar quem não pode ouvir. Todas essas são ordens extremamente práticas. Deus está dizendo: “Eu sou o Senhor, olhe para mim”.

Se você não faz injustiça para favorecer o pobre nem para agradar o rico, mas julga com retidão; se você não é um mexeriqueiro que leva e traz fofocas no meio do povo… Você está sendo santo, porque o Senhor está vendo.

O Cumprimento da Lei em Jesus

Jesus disse que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas cumpri-la plenamente.

Vamos lembrar daquele diálogo com os fariseus e saduceus sobre qual seria o maior dos mandamentos. Um especialista na Lei interrogou Jesus para colocá-lo à prova, perguntando: “Qual é o mandamento mais importante da Torá?”

A resposta de Jesus foi categórica:

“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mateus 22:37-40)

E o que é amar? Às vezes nós queremos complicar o conceito, mas amar é fazer o bem. Por isso é possível amar inclusive o inimigo. Se alguém se declarou meu inimigo, me deseja o mal e quer me prejudicar, é natural que ele não esteja no meu círculo íntimo de convivência. Mas, se eu tiver a oportunidade de fazer o bem a ele, eu devo fazer. Isso é ser santo.

Lembro-me da parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37). Havia um homem caído à beira do caminho, atacado por salteadores. Passaram por ali um sacerdote e um levita, mas quem o socorreu foi um samaritano, que, em tese, era um inimigo cultural daquele homem. Esse mesmo tema é registrado por Lucas com um detalhe importante: a pergunta inicial do legista era sobre o que fazer para herdar a vida eterna.

Muitas vezes as pessoas associam as coisas dessa forma: “Tenho que ser santo para ganhar a vida eterna, então preciso me enclausurar, me separar do mundo, não posso tocar, não posso ver, não posso isso ou aquilo”. Mas Jesus pergunta àquele fariseu: “O que está escrito na Lei?” (Lucas 10:26). O homem, conhecendo a Palavra, respondeu sobre amar a Deus e ao próximo. Jesus, então, validou a resposta e disse: “Respondeste bem; faze isso e viverás”.(Lucas 10:28)

Conclusão: Imitadores de Deus

Por fim, irmãos, ouçamos o que o Espírito Santo nos diz através do apóstolo Paulo:

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou…”. (Efésios 5:1-2)

Isto é muito forte. Imitar a Deus é andar em amor. E amar é fazer o bem. Fazer o bem é rejeitar tudo aquilo que nos torna comuns ou profanos. O que Deus quer de nós é que, ao andarmos em amor e fazermos o bem, sejamos santos na prática do nosso cotidiano.

Não vamos mais mentir, porque, quando mentimos, negamos a capacidade de Deus nos defender. Quando retemos a oportunidade de fazer o bem, negamos a Deus, porque Ele é o próprio amor e o puro “fazedor” do bem.

Que Deus nos dê a compreensão de que ser santo não é se isolar, mas mergulhar no dia a dia e, na presença dos outros, dar testemunho de que cremos em um Deus vivo, que existe, cumpre a Sua palavra e cuida de nós.

Quando as pessoas olharem para você amando, fazendo o bem, cuidando do necessitado, sendo um bom pai, um bom marido, um bom filho, um bom empregado ou um bom patrão, elas vão olhar e dizer: “Essa pessoa realmente acredita em Deus. Tem algo de diferente nesse jovem, nesse casal”.

Comece a enxergar os mandamentos sob essa perspectiva. Não entre no debate teológico estéril de que “Ah, isso é do Antigo Testamento, isso era para os judeus”. Enxergue os mandamentos como marcos referenciais que Deus nos deu para não nos perdermos no caminho — mas sobre isso podemos falar em outra oportunidade.

Louvado seja Deus por Sua Palavra. Que Ele nos conceda a graça de sermos santos todos os dias.

Amém.