Santos Sereis
Por Mauricio Pontello
Tenho comigo que quatro coisas são básicas e
importantes ao refletirmos sobre a santidade ao Senhor:
Quando olhamos para Israel na Bíblia, percebemos
que a santidade está posicionada como em círculos concêntricos. Em um círculo
maior, temos os israelitas; dentro dele, um outro círculo, que são os levitas;
e, no centro do círculo dos levitas, temos os sacerdotes. Isso nos mostra que,
quanto mais perto do centro estamos, mais perto de Deus ficamos, ou seja, mais
íntimos e mais santos nos tornamos.
Quando olhamos para o Pentateuco, vemos que o livro
de Levítico é o seu centro geométrico e teológico. É preciso ter boa imaginação
para visualizar todas as cerimônias descritas ali, mas ele é o coração daquelas
leis, e o capítulo 19 é o centro do livro. Se formos aos versículos 17 e 18,
ali encontramos o centro desse capítulo.
Historicamente, criou-se a ideia de que ser santo é
viver uma vida de abnegação, clausura ou isolamento monástico: a vida solitária
que os chamados “Pais do Deserto” viveram. Não estou aqui desprezando
a história dos monges e dos Pais da Igreja, que se isolaram do mundo para
buscar a santidade e fugir da realidade; tudo tem o seu valor e o seu ensino.
Só que essas escolhas não refletem a realidade prática descrita em Levítico 19.
A Santidade no Cotidiano (Levítico 19)
Levítico 19 começa assim:
“Disse o Senhor a Moisés: Fala a toda a
congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o
Senhor, vosso Deus, sou santo.”
E como essa santidade se expressa? O texto
continua:
·
Cada um respeitará a sua mãe e o seu pai, e
guardará os meus sábados. Eu sou o Senhor, vosso Deus.
·
Não vos virareis para os ídolos, nem fareis deuses
de fundição. Eu sou o Senhor, vosso Deus.
·
Não furtareis, não mentireis, nem usareis de
falsidade cada um com o seu próximo.
·
Não jurareis falso pelo meu nome, pois profanareis
o nome do vosso Deus. Eu sou o Senhor.
·
Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga
do jornaleiro (trabalhador diário) não ficará contigo até a manhã seguinte.
·
Não amaldiçoarás o surdo, nem porás tropeço diante
do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.
·
Não farás injustiça no juízo; não favorecerás o
pobre, nem comprazerás o grande; com justiça julgarás o teu próximo.
·
Não andarás como mexeriqueiro (fofoqueiro) entre o
teu povo; não atentarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor.
·
Não aborrecerás o teu irmão no teu íntimo; mas
repreenderás o teu próximo e, por causa dele, não levarás sobre ti pecado.
·
Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos
do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.
Percebam, irmãos, que quando Deus fala sobre ser
santo, Ele está falando sobre viver a vida do cotidiano na prática dessas
coisas. Deus não está dizendo que a santidade é algo reservado a uma elite
espiritual; é para todos. Ser santo é não ser comum.
Reparem que, após dar cada uma dessas ordens
práticas, Deus encerra dizendo: “Eu sou o Senhor”. Ele está
afirmando: “Eu sou o Senhor e sou santo, ou seja, não sou comum”.
O nosso Deus não é comum, e as Suas ações se expressam na realidade do nosso
dia a dia, no dia a dia de quem obedece aos Seus mandamentos.
Quando Ele diz para não furtar, não mentir e não
usar de falsidade, Ele estabelece uma diferença. Se o contrário de santo é o
profano (o comum), Ele está dizendo: “Você não pode profanar o meu
nome, tornando o meu nome algo comum”. Você não precisa furtar, porque
eu sou o Senhor e nunca lhe faltará nada. Você não precisa mentir para se
defender, porque sou eu quem o defende. Você não precisa oprimir o próximo,
roubar ou reter o salário do funcionário. Não precisa amaldiçoar quem não pode
ouvir. Todas essas são ordens extremamente práticas. Deus está dizendo: “Eu
sou o Senhor, olhe para mim”.
Se você não faz injustiça para favorecer o pobre
nem para agradar o rico, mas julga com retidão; se você não é um mexeriqueiro
que leva e traz fofocas no meio do povo… Você está sendo santo, porque o
Senhor está vendo.
O Cumprimento da Lei em Jesus
Jesus disse que não veio revogar a Lei e os
Profetas, mas cumpri-la plenamente.
Vamos lembrar daquele diálogo com os fariseus e
saduceus sobre qual seria o maior dos mandamentos. Um especialista na Lei
interrogou Jesus para colocá-lo à prova, perguntando: “Qual é o
mandamento mais importante da Torá?”
A resposta de Jesus foi categórica:
“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e
primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo
como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os
Profetas.” (Mateus 22:37-40)
E o que é amar? Às vezes nós queremos complicar o
conceito, mas amar é fazer o bem. Por isso é possível amar inclusive o
inimigo. Se alguém se declarou meu inimigo, me deseja o mal e quer me
prejudicar, é natural que ele não esteja no meu círculo íntimo de convivência.
Mas, se eu tiver a oportunidade de fazer o bem a ele, eu devo fazer. Isso é ser
santo.
Lembro-me da parábola do Bom Samaritano (Lucas
10:25-37). Havia um homem caído à beira do caminho, atacado por salteadores.
Passaram por ali um sacerdote e um levita, mas quem o socorreu foi um
samaritano, que, em tese, era um inimigo cultural daquele homem. Esse mesmo
tema é registrado por Lucas com um detalhe importante: a pergunta inicial do
legista era sobre o que fazer para herdar a vida eterna.
Muitas vezes as pessoas associam as coisas dessa
forma: “Tenho que ser santo para ganhar a vida eterna, então preciso me
enclausurar, me separar do mundo, não posso tocar, não posso ver, não posso
isso ou aquilo”. Mas Jesus pergunta àquele fariseu: “O que
está escrito na Lei?” (Lucas 10:26). O homem, conhecendo a Palavra,
respondeu sobre amar a Deus e ao próximo. Jesus, então, validou a resposta e
disse: “Respondeste bem; faze isso e viverás”.(Lucas 10:28)
Conclusão: Imitadores de Deus
Por fim, irmãos, ouçamos o que o Espírito Santo nos
diz através do apóstolo Paulo:
“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos
amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou…”. (Efésios 5:1-2)
Isto é muito forte. Imitar a Deus é andar em amor.
E amar é fazer o bem. Fazer o bem é rejeitar tudo aquilo que nos torna comuns
ou profanos. O que Deus quer de nós é que, ao andarmos em amor e fazermos o
bem, sejamos santos na prática do nosso cotidiano.
Não vamos mais mentir, porque, quando mentimos,
negamos a capacidade de Deus nos defender. Quando retemos a oportunidade de
fazer o bem, negamos a Deus, porque Ele é o próprio amor e o puro “fazedor” do
bem.
Que Deus nos dê a compreensão de que ser santo não
é se isolar, mas mergulhar no dia a dia e, na presença dos outros, dar
testemunho de que cremos em um Deus vivo, que existe, cumpre a Sua palavra e
cuida de nós.
Quando as pessoas olharem para você amando, fazendo
o bem, cuidando do necessitado, sendo um bom pai, um bom marido, um bom filho,
um bom empregado ou um bom patrão, elas vão olhar e dizer: “Essa pessoa
realmente acredita em Deus. Tem algo de diferente nesse jovem, nesse
casal”.
Comece a enxergar os mandamentos sob essa
perspectiva. Não entre no debate teológico estéril de que “Ah, isso é
do Antigo Testamento, isso era para os judeus”. Enxergue os
mandamentos como marcos referenciais que Deus nos deu para não nos perdermos no
caminho — mas sobre isso podemos falar em outra oportunidade.
Louvado seja Deus por Sua Palavra. Que Ele nos
conceda a graça de sermos santos todos os dias.
Amém.