Temos aprendido desde de que ingressamos na caminhada cristã que Deus tem uma obra de amor, onde, por meio do sacrifício de seu Filho unigênito, fomos adotados e agora partícipes de sua obra de salvação. Louvado seja o Senhor! No entanto, nestes dias, ando me perguntando se tenho permanecido nesta mesa familiar, pois entrar em uma casa é uma coisa e permanecer aí é outra totalmente diferente. Aqui nasce a proposta desta meditação: quais os pilares de sustentação em nossas vidas que nos mantem como filhos do Altíssimo? Certamente as melhores referências bíblicas para discussão deste tema estão no evangelho e cartas de João:
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor. Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo. O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. (Jo. 15:10-13)
E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado. (I Jo 3: 23-24)
Observe que o vínculo da unidade entre o Filho e o Pai é amor, como também a nossa para como ele, manifestado na obediência. O Rabino Sinciair1 apresenta uma analogia interessante sobre a unidade e o amor: a palavra usada no hebraico para amor é אהבה (ahavh) e unidade é אחד (echad), tendo ambas o mesmo valor numérico, 13. Ou seja, a unidade é a aspiração do amor e o amor emerge da percepção da unidade. Este conceito aparece primariamente no velho testamento em Deuteronômio 6: 4-5: Antes de amar ao Senhor, nos lembra que Ele é unidade. Os mandamentos também são permeados pelo amor. Deus ordena que os Israelitas amarem seus vizinhos como a si mesmos (Lv 19:18), amar o estrangeiro como a si mesmos (Lv 19:34) e ao Senhor com todo seu coração, alma e força (Dt 6: 5).
Jesus apresentou a condição de amar como um mandamento, מצוה (mitzvah). Não é uma sugestão ou uma alternativa de vida e sim uma ordem divina, sem atalhos, sem concessões, deve ser cumprida plenamente, todos os dias, em todo tempo. Muitas vezes responder a esta ordem parece desproporcional ou injusto, gerando em nós uma grande luta interior. Abigail Wood2, em seu artigo Vivendo em Comunidade, registra uma história que espelha um pouco deste incômodo. O soldado israelense Gilad Sharit, preso pelo Hamas há cinco anos foi libertado em 2011. Sua liberdade teve um grande custo para o estado de Israel, uma vez que no acordo foi exigido a troca do militar por 1027 palestinos encarcerados, sendo muitos assassinos e terroristas que certamente regressariam a suas atividades anteriores. Por que o governo aceitaria esta injustiça? Independentemente de opiniões políticas e sociais sobre esta controvertida negociação, para o país Sharit era filho de cada mãe e irmão de cada cidadão, sendo sua perda a de toda uma comunidade e não somente de uma só família.
Precisamos compreender e viver como parte de um todo, unidade, e trazer nossas escolhas e decisões nesta base coletiva, sendo o amor a eleição do bem maior. Que o Espirito Santo nos conduza para alcançarmos vidas transformadas nestes dias.
Por Wailton de Carvalho
Julho 2024
Referências:
1. SINCIAIR, Julian. 2018. Ahavah. Disponível em: https://www.thejc.com/judaism/jewish 2.WOOD, Abigail. 2015. Living in Communit. Disponível em: https://www.bridgesforpeace.com/letter/living-in- Community