Carta encontrada no gueto de Varsóvia

CARTA A DEUS E AO MUNDO

Por Yosel Rakover apela a Deus, de Zvi Kolitz

Traduzido por Wailton de Carvalho – Ago 2024

Eu, Yosel, filho de David Rakover de Tamopol, um “jasid” (ortodoxo) do Rabino de Gur e descendente das piedosas e grandes famílias de Rakover e Meisel, escrevo estas linhas enquanto as casas do gueto de Varsóvia estão tomadas por chamas e a casa em que estou é uma das últimas que ainda não ardem.

Durante várias horas, raios das salvas da artilharia estalam sobre nós e as paredes ao redor se desintegram devido ao fogo. Já não falta muito para que a casa em que me encontro se transforme, como todas as outras do gueto, numa tumba de seus defensores.

Quando a minha mulher, meus filhos, seis no total, e eu nos escondíamos na noite, a qual nos acolhia em sua segurança e, durante o dia, nos devolvia a nossos perseguidores e assassinos. Recordo com uma dolorosa clareza o dia em que os alemães varreram com fogo aos milhares de refugiados na estrada que liga Grodno a Varsóvia. Na alva, os aviões zumbiam sobre nós e nos assassinavam durante todo o dia. Neste massacre pereceu minha esposa com nosso filho de sete meses em seus braços e outros dois de meus cinco filhos restantes desapareceram sem deixarem pistas. Eram David e Yehudah, de quatro e seis anos de idade.

Ao anoitecer, um punhado de sobreviventes continuaram sua caminhada a Varsóvia e eu, com meus outros três filhos começamos a procurar nos campos e bosques do massacre aos meus dois filhos desaparecidos. Durante toda a noite gritávamos por seus nomes, sendo respondidos apenas pelo eco. Nunca mais os vi e mais tarde, em sonho, me disseram que estavam nas mãos de Deus. Os outros três filhos morreram ao final de somente um ano no gueto de Varsóvia.

Rujele, minha filha de dez anos, viu que era possível encontrar migalhas de pão em um aterro sanitário público, fora dos muros do gueto. Dentro dos muros padecíamos de fome e, nesta época, as pessoas estavam preparadas para enfrentar qualquer tipo de morte, exceto a de fome. Minha filha não me havia dito nada sobre seu plano de sair do gueto, cuja pena era a morte. Ela e uma amiguinha da mesma idade começaram a perigosa jornada. Deixaram o abrigo durante a noite escura e, ao sair o sol, ambas foram avistadas fora dos muros. Guardas nazistas, e dezenas de agentes poloneses começaram a perseguição a duas meninas judias que se aventuram na busca de um pedaço de pão em um cesto de lixo. Os que presenciaram esta cassada, desde as janelas, não poderiam crer no que viam. Parecia que perseguiam uns criminosos perigosos, no entanto eram apenas duas meninas famintas de dez anos.

Não puderam suportar esta concorrência desigual. Uma delas, minha filha, correndo com suas últimas forças, caiu exalta no solo e os nazis a balearam na cabeça. Sua amiga escapou, porém, transtornada, faleceu algumas semanas mais tarde. O quinto de meus filhos, Yaacov, um menino de treze anos, morreu de tuberculose no dia de seu “Bar Mitzvah” (apresentação a comunidade como adulto). Minha última filha, Chayah, de quinze anos, pereceu durante uma “kinderaction”, operação de crianças, que começou no início do último dia de Rosh Hashanah (Ano novo judaico) e terminou ao amanhecer. Neste dia, antes do pôr do sol, centenas de famílias recitaram o Kadish (texto de oração em memória dos falecidos) por seus filhos.

E agora está chegando minha hora. Como Jó, posso dizer de mim, não sendo o único, que vou a terra nu, como o dia em que nasci. Tenho quarenta e três anos e olhando para o passado posso dizer honestamente, tão confiado como um homem pode ser consigo mesmo, que tenho vivido digna e respeitosamente, com o coração cheio de amor por Deus. Fui abençoado com sucesso, mas nunca os ostentei e minha casa sempre foi aberta aos necessitados. Servi a Deus com entusiasmo e somente Lhe pedia para que me permitisse honra-lo de todo meu coração, com toda minha alma e com todas minhas forças.  Não posso dizer que minha relação com Deus permaneceu inabalável depois de tudo que tem sucedido, mas posso afirmar, com absoluta certeza, que minha crença nEle não mudou em absoluto.

Ainda tenho três garrafas de gasolina, as quais são tão preciosas para mim como um vinho para um bêbado.  Éramos doze neste quarto, quando começou a rebelião, onde combatemos nove dias com o inimigo. Meus onze companheiros caíram mortos silenciosamente na batalha, incluindo um menor de cinco anos, que chegou aqui sabe Deus como e, agora morto perto de mim, apresenta um sorriso como das crianças que sonham pacificamente. Ele também morreu com a mesma calma ética de seus camaradas mais velhos.

Eu escrevo estas linhas deitado no chão, meus companheiros estão mortos ao meu redor. A menos que meu rosto seja comido pelas chamas, um sorriso semelhante ao daquele menino poderia ser gravado nela depois da minha morte. Enquanto isso, ainda vivo e antes de morrer, quero falar ao meu Senhor como um homem vivente, uma pessoa simples que teve a grande, mas trágica sorte de ser judeu. Estou orgulhoso de ser judeu, não apesar do tratamento que o mundo nos oferece, mais precisamente por causa desse tratamento. Me envergonharia ser parte das pessoas que geraram e criaram os criminosos responsáveis pelos atos que foram perpetrados contra nós. Tenho orgulho de ser judeu porque é uma arte ser judeu, porque é difícil ser judeu. Não é arte ser inglesa, americana ou francesa, pode inclusive ser mais fácil, mais confortável ser uma delas, mas não é mais honrosa. Sim, é uma honra ser judeu. Fico feliz em pertencer às pessoas mais infelizes do mundo cujos preceitos representam a mais alta e mais bela de todas as moralidade e leis. Um judeu nasce como um artista nasce, é impossível renunciar a ser judeu.

Este é o nosso atributo divino que nos tornou um povo escolhido. Eu acredito em Ti, Deus de Israel, apesar de tudo que Tu fizestes para que eu não creia mais em Ti. Eu acredito em Tuas leis, mesmo quando não consigo entender Tuas ações.

A morte não pode esperar mais. Nos pisos superiores ao meu o tiroteio se enfraquece a cada minuto que passa, demostrando que os últimos defensores desta fortaleza estão caindo e com eles perecem os “jasidim” (ortodoxos) de judeus de Varsóvia, “yeré Elohim”, temerosos de Deus. O sol está se pondo em uma hora mais e eu logo estarei reunido com minha família e os demais milhares de sucumbiram de meu povo.

Tenho te buscado, ainda que Tu me rejeitaste, tenho seguido teus mandamentos, ainda que me castigaste por eles. Tenho te amado e te amo, ainda que tenhas me lançado no solo, me torturado até a morte e me convertido em objeto de vergonha, de escarnio e de ridículo. Estas são minhas últimas palavras para Ti, meu irado Deus. Fizeste todo o possível para que eu perdesse minha fé em Ti, mas morro exatamente como tenho vivido.

Shema Israel HaShem Elohenu HaShem Ejad (Escute Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é único)

Em Tuas mãos, oh Senhor, entrego meu espirito.

 

Varsóvia, 28 de abril de 1943 (Nisan 5703)